Home Data de criação : 08/03/22 Última atualização : 08/03/25 02:23 / 12 Artigos publicados
 

O artista Emiliano Fonseca  escrito em domingo 23 março 2008 04:17

 

 

Emiliano Fonseca

Graduado em artes plásticas (EBA - UFRJ) e mestre em Ciência da Arte (IACS - UFF), atua como professor e artista pesquisador das manifestações contemporâneas nas artes visuais.

Recebeu Menção Especial da VI Bienal do Recôncavo, com aquisição da obra (concebida a partir de uma urna mortuária - um caixão) para o acervo do Centro Cultural Dannemann.

Atualmente desenvolve pesquisa que busca dar conta do fenômeno da sociedade de consumo, vista como a própria sociedade produtora de lixo e, por conseqüência, uma sociedade promotora da descartabilidade de bens duráveis, de valores sociais, estéticos, afetivos ou morais. Tudo isso pretensamente representado por um tal objeto de arte...

Mas nem tudo começou assim na vida deste artista. Emiliano realizou suas primeiras experiências estéticas já na infância, desenhando, pintando e esculpindo em sua terra de orígem, no interior da Bahia, Medeiros Neto, onde nasceu e, depois, Teixeira de Freitas, quando esta ainda era distrito de Caravelas. Como amante da arte prosseguiu sem muito acesso às informações da história e teorias da arte - especialmente aquelas informações provinda da academia, uma vez que, num esforço pelo saber, já se deleitava nos livros que lhe chegavam às mãos, mas sem ainda uma orientação específica, condição imposta pela própria distância dos grandes centros. Era comum na ocasião - como se fazia nos séculos passados nas grandes fazendas, o filho sair de casa cedo, entre 13 e 18 anos, para estudar na capital. Assim o fez Emiliano, aos 15 anos veio para o Rio de Janeiro. A formação acadêmica propriamente dita só se tornou possível ao ingressar na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, no curso de Bacharelado em Artes Plásticas, onde teve como professores nada menos do que Paulo Venancio, Lígia Pape, Maria Luisa Luz Távora, Marcelo Duprat, Ricardo Newton – entre outros. De modo que seu trabalho e suas idéias a partir dali tomariam um norte, que o colocaria sintonizado com toda a produção de arte contemporânea brasileira e, evidentemente, a mundial.

Assim, além de participações como a da Bienal do Recôncavo com o caixão, foto acima, Emiliano teve o prazer de expor com o saudoso Bernardii numa Mostra que aconteceu – conforme já estava agendada, dois dias depois do ataque às torres gêmeas, o que causara naquele momento um ambiente nada propício à fruição da arte. A sensação era mesmo de fim de mundo! O vernissage aconteceria dia 13 de Setembro. No dia 11, dia fatídico, todos foram tomados de surpresa com aquele acontecimento que alterou a ordem do dia. No dia 12, Emiliano não menos afetado mas ainda lúcido, comprou todos os jornais disponíveis e se lançou a recortar as principais fotos do ataque do dia anterior. Montou um painel com os recortes e colocou algumas gravuras   (sobrepondo às fotos das torres gêmeas em fogo) das atrocidades promovidas pelos norte-americanos que mataram em poucos segundos 180.000 inocentes com o ataque nuclear a Hiroshima e Nagasaki, ou no ataque a civis e inocentes na guerra do Vietnam, onde os americanos mataram de 2 a 5.000.000 de pessoas: estava criado o contraponto que o artista desejava.

Considerando todos os ataques mortais promovidos pelos americanos em diversas nações do mundo, disse Emiliano, podemos afirmar que nunca na história da humanidade um grande império matou tanta gente como o império norte-americano!  Sem perder a noção do momento histórico que vivia, o artista montou o painel ao fundo da obra Semipenetrável, alterando-lhe por completo seu discurso ( essa obra já estava no convite da exposição que fora impresso antes de 11 de Setembro,  mas sem que se conhecesse o seu conteúdo, que exploraria, segundo o artista, questões relacionadas às cores). Resultado: como o público tinha que enfiar a cabeça na obra para saber do que se tratava, formou-se um ritual no qual as pessoas tiravam a cabeça do trabalho com ar de um certo conformismo, ou expressando que ali se desconstruía a imagem de vítima que os Estados Unidos gozava naquele momento, tal tinha sido mesmo a violência daquele ato assombroso!

Uma outra obra, Útero, que tinha sido concebida para abrigar sonhos, desejos de realizações, enfim, uma obra que falava de esperança... naquele ambiente apocalíptico... levou o artista, em silêncio, também comovido, a observar o fenômeno que se desenrolava diante da interação do público com aquela obra: os participantes demonstravam estar depositando na obra, com visível fervor, todos os seus anseios por um mundo melhor. É de se imaginar mesmo que as mensagens ali colocadas, no mínimo, montariam um painel do que foi aquele momento histórico de nossa era contemporânea. Quem realizou uma crítica da Mostra pertinente e perspicaz foi a jornalista Helena Reis, na edição de nº 10 da Revista Casa.

Diante daquela experiência Emiliano se viu impelido a explorar ainda mais alguns objetos inusitados, especialmente se este proporcionasse a participação do público - ou porque lhe agradava as experiências neoconcretistas de outrora ou simplesmente porque desejava mesmo produzir uma arte que quebrasse todas as convenções formais: veio o caixão! O caixão na verdade se chama, como obra, Urna de Purificação. Tem a proposta de sepultar todas as mazelas da vida, através de um mecanismo parecido com o Útero, ou seja: o participante pode depositar no trabalho pequenos pedaço de papel com descrições de coisas ruins, ou até mesmo fotos de coisas ou pessoas... como a sua sogra, brinca o artista!

Tanto o Útero quanto uma terceira obra desta mesma estirpe, Baú de Desmaterialização, estão no atelier do artista e sempre causam bons diálogos, com os visitantes, sobre suas propostas estéticas e seus objetos nada convencionais!

Da Pintura, sua formação, para os objetos, descortinaram-se idéias que, de fato, não poderiam ficar submetidas aos cânones das Belas Artes. Com verdadeira inspiração duchampiana Emiliano parece que decidiu tirar a paz das coisas...

 

As coisas

Letra: Arnaldo Antunes; Música: Gilberto Gil

 

As coisas têm
Peso, massa, volume
Tamanho, tempo
Forma, cor
Posição
Textura, duração
Densidade
Cheiro
Valor
Consistência
Profundidade, contorno
Temperatura, função
Aparência
Preço, destino, idade
Sentido
As coisas não têm paz
As coisas

 

Participou do workshop realizado pelos artistas Dudi Maia e Boi no Centro de Artes Hélio Oiticica, onde realizou a Cadeira Voadora que foi pilotada pelo próprio Dudi. Atuou como professor no Curso de Licenciatura em Artes Visuais da Unigranrio, em Caxias, sempre incentivando aos alunos pelo aprofundamento no conhecimento da arte como a forma mais adequada à preparação ideal daqueles que pretendem ensinar arte. Não como um passa-tempo ou uma terapia ocupacional, mas como quem está lidando com forças tão essenciais ao homem quanto respirar, viver. A arte requer especialização, ensinava, tanto quanto a medicina, a física, ou a engenharia. Na UVA, atuou no Curso de Design de Interiores lecionando Desenho Artístico e História da Arte Moderna e Contemporânea. Na Unig, onde teve o projeto para a implantação da primeira Pós-Graduação em Ates Visuais da Baixada Fluminense aprovado, realizou em 2006 a oficina Linguagens Contemporâneas da Arte: Objeto. Nesse encontro, com a participação das alunas Ana Cristina e Maria Helena, nasceu O Crucifixo, utilizando uma pequena cruz de madeira e um abridor de garrafas.

Com tanta demanda pela pesquisa era natural que este artista buscasse então a continuação das mesmas pautadas no aprofundamento do saber científico, filosófico e acadêmico. Assim, foi aceito no mestrado em Ciência da Arte do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Fluminense - UFF. Com a competente orientação de Latuf Isaias Mucci dissertou sobre Mário de Andrade, Uma Estética em Construção, na qual aponta não mais Mário de Andrade como um poeta, escritor ou musicista, mas como crítico e pensador da arte, esteta e analista do próprio Modernismo; movimento do qual fez parte e, conforme sua próprias palavra, incluiria o Brasil no concerto das nações modernas.

O mestrado o aproximou ainda mais do campo teórico e filosófico aumentando-lhe a suspeita de que a arte se tornara mesmo, já há algum tempo, algo que requer não apenas a habilidade estética de outrora, mas a articulação intelectual, o conhecimento filosófico e o saber científico. Para Hegel, cita Emiliano em sua dissertação, a ciência da arte é o próprio saber da arte. A filosofia se encarrega do saber das coisas. Ao se empenhar na empresa de entender a arte pelos mecanismos que denotam tal saber, a filosofia está se encarregando de uma ciência que é a própria arte.

Empenhado que estava com este saber, Emiliano orgulhoso do prazer de ter tido como mestres Ued Maluf, José Maurício Saldanha entre outros, destaca mesmo, Sonia Maria Taddei Ferraz por fortalecer neste o discurso contra o efêmero, cita, nos dias de hoje, ainda que pautado em outro de 1848 – o Manifesto Comunista, de Karl Heinrich Marx.

Do Contato com Sonia Taddei nasceu uma inquietação que ainda não cessou na cabeça do artista: estudar a arte a partir do comportamento social entendido como o consumo, o consumidor e o consumismo. Atualmente o artista está se empenhado em acompanhar os estudos da Professora Laura Graziela, da linha de Antropologia do Consumo, no Programa de Doutorado em Antropologia da Universidade Federal Fluminense – UFF.

 

Clea Villas Boas

cleavillasboas@yahoo.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* * *






Partager

Faça um comentário!

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.
Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (38.107.191.110) para se identificar     

Nenhum comentário
O artista Emiliano Fonseca